Qual a prática homossexual que é condenada no texto da Bíblia?
Homossexualidade envolvida em idolatria e paganismo ou a relação homoafetiva consensual como a conhecemos hoje?
Estudo Hermenêutico e Exegético – Levítico 18:22, 20:13 e Romanos 1:26-27
1. Introdução
Os textos de Levítico e Romanos frequentemente são citados
em debates sobre a moralidade de relações homoafetivas no cristianismo e no
judaísmo. Contudo, uma análise hermenêutica séria exige que sejam considerados:
- O contexto histórico-cultural de produção.
- O uso linguístico original (hebraico e grego).
- A situação religiosa e sociopolítica em que foram
escritos.
- O gênero literário e o propósito teológico dos
autores.
- A distinção entre prescrição cultural antiga e
princípios éticos universais.
2. Levítico 18:22 e 20:13
Texto
- Levítico 18:22 – "Não te deitarás com um homem
como se deita com uma mulher; é abominação."
- Levítico 20:13 – "Se um homem se deitar com
outro homem como se fosse mulher, ambos praticaram abominação; certamente serão
mortos; o seu sangue é sobre eles."
2.1 Contexto Histórico
- Data e função: Parte do Código de Santidade
(Levítico 17–26), compilado provavelmente entre os séculos VII e V a.C., no
contexto do exílio ou pós-exílio babilônico.
- Objetivo: Estabelecer fronteiras identitárias e
rituais para diferenciar Israel dos povos vizinhos (Canaã, Egito, Mesopotâmia),
preservando pureza cultual e social.
- Sociedade patriarcal: A masculinidade era associada
a domínio, fertilidade e linhagem. Relações sexuais entre homens podiam ser
vistas como quebra dessa ordem, especialmente quando um homem assumia o papel
sexual considerado “passivo”.
2.2 Linguagem Original
- O termo hebraico "to‘evah" (abominação)
não significa necessariamente imoralidade universal; é usado em Levítico e
outros textos para designar práticas “imundas” ou “tabu” no
contexto de pureza ritual (cf. Deuteronômio 14:3, sobre alimentos impuros).
- A expressão "como se deita com mulher"
implica uma proibição voltada ao ato sexual específico e não necessariamente à
orientação ou afeto.
2.3 Interpretação Crítica
- Perspectiva tradicional: Condenação absoluta de
relações sexuais entre homens como contrárias à ordem divina.
- Perspectiva histórico-cultural: A proibição pode
estar ligada à preservação da pureza ritual e da ordem social patriarcal, não a
um princípio moral universal.
- Leitura progressista: Textos devem ser entendidos à
luz do avanço da compreensão humana sobre sexualidade e dignidade; a lei visava
um contexto particular, não todas as sociedades.
3. Romanos 1:26-27
Texto
> “Por isso Deus os entregou a paixões vergonhosas. Até
as suas mulheres trocaram a relação natural pela que é contra a natureza.
Semelhantemente, os homens também deixaram a relação natural com a mulher e se
inflamaram de paixão uns pelos outros...”
3.1 Contexto Histórico
- Carta de Paulo aos cristãos de Roma (~57 d.C.).
- Público misto: judeus e gentios.
- Paulo usa retórica típica de filósofos moralistas
greco-romanos para descrever a decadência moral dos povos pagãos, conduzindo
seu argumento até Romanos 2 para mostrar que todos estão debaixo de
pecado, sem exceção.
3.2 Linguagem Original
- “Contra a natureza” (παρὰ φύσιν – para physin) era expressão
grega usada não só para sexualidade, mas para qualquer comportamento fora do
habitual ou socialmente aceito (cf. 1 Coríntios 11:14 sobre cabelos longos em
homens).
- O foco de Paulo não é a orientação sexual moderna
(conceito inexistente na época), mas práticas associadas a cultos idolátricos,
possivelmente prostituição sagrada e excessos eróticos nas religiões pagãs.
3.3 Interpretação Crítica
Perspectiva tradicional: Paulo condena atos homoeróticos
como contrários ao plano divino para a sexualidade.
Perspectiva histórico-cultural: Paulo reage a contextos de
promiscuidade e culto idolátrico, não descrevendo relações consensuais e
estáveis como entendemos hoje.
Abordagem literária: O texto faz parte de uma argumentação
retórica que não tem como objetivo central a sexualidade, mas demonstrar que
tanto gentios quanto judeus necessitam da graça de Deus.
4. Considerações Hermenêuticas
Diferença entre ato e identidade: Os textos tratam de
comportamentos, não da noção de identidade sexual moderna.
Cuidado com anacronismo: Não se pode aplicar conceitos do
século XXI ao mundo antigo sem risco de distorção.
Princípio interpretativo: Separar leis rituais e civis do
Antigo Testamento das leis éticas universais exige análise cuidadosa.
Diversidade de leituras: Comunidades religiosas divergem
entre manter a interpretação literal e recontextualizar a aplicação ética.
5. Conclusão
Levítico 18:22 e 20:13 refletem um código de pureza e
identidade nacional num contexto patriarcal e ritualista. Romanos 1:26-27,
inserido em um discurso retórico, dialoga com a moralidade greco-romana e com
práticas religiosas pagãs.
A interpretação contemporânea desses textos exige
discernimento entre mandamentos culturais antigos e princípios éticos
universais, levando em conta a evolução do conhecimento sobre sexualidade
humana, dignidade e direitos.

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